Já partiram os acenos do portão. As conversas nas cadeiras dos fundos também, acompanhadas dos tenros sorrisos de quem já viu de tudo. Viu de tudo atravessando a passos fortes a fluidez do tempo, amaciando a robustez da espera em afagos de cuidados atenciosos, costumeiros, constantes. Doravante não haverá mais a partilha dos doces, os almoços fartos nos domingos enormes, sermões que, de tão acintosos, eram ridiculamente bondosos, caprichosamente convincentes. Não, jamais voltarei àqueles domingos. E sábados. E terças-feiras, e quaisquer outros dias perdidos em meio aos rituais de toda semana onde, obrigado por um sei-lá-o-que venturoso, me via atraído por aquele quintal e aquelas plantas que nunca pude ofender. Não tem mais nada disso e é lamentável ter que admitir tal coisa como fato consumado, como coisa da vida. Vida de muitos. Mãe de múltiplos! Casa gigante, cabia o meu mundo inteiro no piso gelado daquela varanda, onde por inúmeras vezes, sujo, limpo ou preguiçoso, deitei-me com a presunção de que o corpo e a alma ali se avolumavam mais que em qualquer parte. Proclamei, sim, um sem-fim de besteiras na frente do Cristo, observador onipotente na estante da sala. Com ou sem heresia estava lá também a Aparecida – ou a Fátima, a Lourdes, a Guadalupe – para me retornar ao sagrado, e dali em diante me livrar dos pecados. Amém! Tinha o quarto com um cheiro bem peculiar, cheiro da minha avó, ora bolas. Tinha as roupas da minha avó. As fotos dela, a sua benção de sempre. Sua velhice de lucidez admirável (...). Fui criança e me fiz adulto por ali, entre um e outro pedaço de pudim-de-pão. Tinha sempre a minha avó. Não tenho mais. Tenho saudade. Coisa boa, sofrida também. Choro bobo, tenho ainda. Tenho muito dessa mulher que me ajudou a ser. Tenho, tenho sim. Ela deve saber.
*Nome besta tem esse texto. O flamboyant já tinha ido embora bem antes dela. Mas, assim como me lembrava luminoso, ainda com ela, da calçada coberta por aquelas flores vermelhas miudinhas, fico com os vinte e seis anos de nossa convivência fincados no peito feito um broche, certo de que pude lhe demonstrar tudo o que sentia e ainda sinto. Olha por mim, minha vó!
Escondendo o capricho dos primeiros acertos. Entrelaçando sonhos e também os dedos. Corrigindo caretas, comendo besteiras, tocando a marcha com quem espera a chuva. No desapossamento dos que são pra si, no acorrentar bondoso dos que livres são. Na palavra franca de um olhar tranqüilo, como é imensa a entrega de um cansaço fino!
Tendo duas faixas na entrada das portas. Dois armários tortos no escorregar das paredes. Dois relógios firmes no desinteresse pelo tempo. Dois passos em quatro pés. Duas fórmulas de cobrir o hoje, dois baratos únicos de carreiras doidas. Um lamento. Três abraços. Muitos focos, doces lábios, certas fugas, cortes rasos, desventuras de retratos. Num rastro, as conquistas de um quarto. No derrubar das cobertas, alguns papéis e os sapatos.
Mãos no rosto, declarações que importam muito. Fazem falta quando longe estão. Vida intensa que se espalha ao chão! E vem a fome avisando o corpo, e não há temor que se encontre morto. Tudo é possível num compasso torto. Daí, a compensação de um calor gratuito. O encorajar de um agrado junto. O reconforto de um singelo assunto.
Notas de uma tarde ao sol. Sambas de uma nota só. Circos de palhaços mil. Contos que ninguém ouviu. Um salto, um aperto, um texto. Tecido, conluio, um beijo. Tem sido, e muito, um intenso proveito. Que bom, um viva! Dá gosto que é assim é feito!
Quanto tempo se perde sem um sorriso para dar. Quantos braços, e brindes, e traços, e afagos e fins que recomeçam, no entanto, para, enfim, dar nome e forma ao que todo mundo já vê, e aponta, e recomenda aos deslumbrados que não cessam de buscar o porquê de um viver assim. Quanto vento vai ventar no rosto de quem não receia em dizer sim!
É coisa boa para se contar. Num flutuar desequilibrado, uma balsa de quatro troncos, com o abuso indispensável para se atravessar torrentes. Prepotente, desejosa em ter com as brilhantes cascatas que dizem haver à frente. Barco pequeno, nem barco é. Coisa que sustenta, agüenta firme, carrega e vai adiante! Água doce e vento incessante num corpo entorpecido pelo sol. Sol invicto, astro admirável pendurado num colar! O fechar de olhos permite um afastamento do medo pelo que há de vir. É no fechar de olhos em momentos definitivos que os desejos mais necessários se revelam com nitidez. Nítido é o dia, com as passadas desaceleradas dos que se permitem contemplar as vias. Nítida também é a noite, se ajustada ao fino jeito de apreciá-la com paixão.
Não basta sorrir. Não há graça no descompromisso. Felicidade cerceada se consome. Se não pode irradiar-se por aí, num livre esvoaçar pelo espaço, num longo rodopiar pelo tempo, é coisa vã, perecível e ilusória. Se há substância, que renda frutos e novas sementes! Como o ciclo natural das coisas vivas, que todo o contentamento e bem-aventurança permitam aos seus detentores grandes feitos a céu aberto! Um verde novo. Que alegria gratuita signifique sempre a possibilidade de um verde novo.
Para o próprio deleite, o vagar peregrino de olhares tenros, interposto, quase sempre, em salientes pedidos por coisas pequenas: um copo d’água fresca, uma fatia de pão, uma manta para cobrir as pernas. Três dedos de encantamento num brinde para o desconhecido! E ao redor de toda gente, o apego à dignidade humana, como se o arrebatamento fantástico advindo do amor não manifestasse outra condição, senão esta: o contato íntimo com o mundo e seus passantes.
Aos sem rumo, sem ícones. Aos fadigados, com dores nas costas, risos foscos, nevralgia latente, calos nos calcanhares, lábios murchos e acepções oblíquas acerca do bem. Aos que têm vertigem no alto do mundo. Aos temerosos que não têm o hábito de se lançar; aos que, diante das flagelas dos descamisados, viram o rosto; aos sãos que não inspiram labor. Aos cinzentos, aos que anunciam idéias ocres e dispersam qualquer conjunto de palavras cínicas.Aos que se exibem aos berros e não se movem. Aos robustos sem força para erguer quem quer que seja. Aos cheios de ira, aos traiçoeiros, aos fétidos, enjaulados em si, gatunos, ladinos frios, comissários da perseguição, burocratas do desprazer, aos paladinos da inveja; aos que queimam pelo simples gozo do fogo e não aquecem a outrem; aos amantes do espelho de moldura talhada e aos desprovidos de toda fé: saudações! Este que cá escreve não lhes toma como referência para atitude alguma, porém, é justamente nesta hora de velas e incensos acesos que é preciso desafiar, entregar-se ao estímulo da compaixão. Aos que ainda não têm boas coisas a contar: felicitações!
O calabouço dos segredos. Quando há sussurros no frescor dos pescoços, é escuro. Do amarrar dos cadarços aos palpites do futuro: não há costume que não seja outro, não há pecado que não seja vulto. Não há nada simplório no escuro. Deixo-me de luto, como quem se queixa da claridade e cheira os ares do absurdo. Encostar, pequenos delitos, um desejo bruto. A lua zelando um mistério profundo. No meio de tudo, o escuro. Como se fosse um amálgama de vontades: o escuro. Como se impedisse uma fábula das verdades: um muro. Um monte de assuntos. Num lapso, um feixe de luz que riscou num segundo. O perigo nas ruas, o asfalto duro. Da esquina, um farol espúrio. Quando próximos, a estranha intimidade permite um furto. Lábios procurando os ombros, olhos elogiando os atributos. O livre manifestar é mudo. Discretos, pensantes, fecundos! No reino do escuro, a nobreza se faz presente no charme, e a insinuação é tudo.
Vivo num país onde os espaços são vastos. Em tese, não há limites para as andanças. Temos muitas passagens. Porém, há tanto espaço vago que me entorpeço com a opulência do vazio.
Nossas praças são enormes, como se fossem construídas para aglutinar exércitos. Campos de Marte, na verdade. Talvez não. Muitas delas possuem estátuas em seu meio, para que as reuniões de muitos ocorram nos cantos, jamais no cerne do front. No entanto, nossas praças abertas, com áreas extensas, estão em territórios mornos, em lugares onde o povo não está, onde o povo é uma névoa ínfima a percorrer a ordem.
As escolas do meu país, seus colégios, museus modernos e universidades são agraciados por ambientes máximos onde a razão flui. Flui tanto que não se condensa. Percebe-se, de maneira recorrente, a amplitude de prédios e corredores olímpicos, por onde o conhecimento se esvai, onde palavras e chamados se perdem entre uma diversidade pouco sinfônica de ruídos e bocejos. Arrastam-se cadeiras no mesmo ritmo que se desfaz talentos. Quase não há campos naturalmente abertos, são raríssimos. A paisagem do aprendizado e da criatividade foi moldada a placas de cimento farto e pilastras de robusto vergalhão. Perspicaz e benevolente, nossa arquitetura a fez com a retidão de quem conhece os seus, com a pura certeza sobre as gentes e seus passos. O homem daqui decidiu por quais circuitos pode a humanidade perambular, nos eixos, nos saguões da disciplina. No claustro modorrento da liberdade condicionada, direcionada e definida por formas geométricas – ora por arte, ora pelas casualidades fatídicas da nossa raça. No método aristocrático dos esquadros e da prescrição nossos pátios surgiram e, quem neles passa, não sabe ao certo em qual direção vai. Nestes mares secos de travessias bêbadas até os pombos se perdem...
Aborreço-me com o distanciamento abissal entre as construções e as pessoas. Como se estas estruturas se erguessem de maneira a abstrair sua área ao extremo. As virtudes estão lá, ao caminho de poucos. Seus vértices e arcos permitem o trânsito difuso dos desavisados. É na dispersão das massas que as vozes se diluem. É na compressão dos movimentos que os clamores se agigantam!
Posto que sou um homem afeito a conversas mais que berros, que prefere becos e ruelas a avenidas, que tem mais gosto pelo encostar proposital, provocativo e impetuoso a esbarrões e gestos desconexos, tenho um profundo desgosto pelo extensohumano. Gosto dos espaçosonde os olhares podem se encontrar. Se o planeta, nosso cantinho de vida, já nos oferece oceanos, chapadas, estepes, pampas, vales e desertos, por que não direcionar nossos encontros à distância da respiração? Sinto falta de contatos íntimos nos lugares meus. Talvez o frio do outono me traga outra vez proximidade e ardor que tanto me confortam. É na perspectiva das calçadas e dos abraços que me encontro e me ofereço. O mês de abril vai passando e seria falácia dizer que não o senti.
Tinha uma imensa vontade de fumar, mas não cedeu à tentação. O sol da manhã acendia sua pele, dilatando os poros e permitindo ao estranho temor que sentia esvair-se lentamente. Sentada num rústico banco de madeira, na calçada de uma agradável loja de doces, experimentava o café enquanto vibrava os pés por estar tensa, com gana de resolver de imediato o que pretendia. Não seria tão simples, e nem poderia ser. Por um instante achou tolice estar ali, mas já não havia outro jeito. Daria um fim ao que sentia ou entregaria seu orgulho aos copos de vodka, saudando à apatia de sua juventude vacilante.
Varsóvia guardava nas paredes e arquitetura de uma dezena de séculos uma elegância provinciana. O aço, o mármore e as luzes do oeste não retiraram da cidade seus minuciosos caprichos eslavos, evidenciados nos detalhes das construções. Todavia, a amargura de um passado cheio de lamentos passeava nas ruas, entre os prédios e nos telhados tão formosos das casas. Alícia assimilava a herança daquele pedaço de mundo peculiar.
A última entre os netos de Wladyslaw e Irena Kowalski, Alícia fizera a viagem para sepultar, enfim, o rancor profundo que sentia pelos seus entes consangüíneos. Tinha ainda, pois, enormes dúvidas sobre a necessidade do ato. Sua casa sempre fora refúgio de discórdias. Os Kowaslki prosperaram na América na mesma medida em que cresciam as intrigas e trapaças familiares. O parentesco era um castigo que todos assumiam em conjunto. A memória de uma ascendência polonesa era quase um estigma, uma chaga que todos carregavam, um traço de amargura que não liquidariam jamais. Todos, inclusive Alícia, cresceram como caules egoístas erguidos de uma mesma raiz. Não compartilhavam seus frutos, tampouco a escassez dos tempos em que a natureza recua. Venceram em seus ofícios e colecionaram desastres na esfera íntima. Fortaleceram-se nas empreitadas individuais que teimavam em realizar diante dos meandros de vidas inteiras sem propósitos definidos. O antigo piano no casarão da rua das Hortênsias era um exílio para os que jamais se comoviam com coisa qualquer. Uns e outros encontravam na melodia das atrofiadas teclas um meio de interiorizar um sopro de doçura e regozijo. Dias de chuva conspiravam a favor destes raros momentos.
De tão intensa relação entre Wladyslaw e Irena, cerceada de ásperas discussões e épicas declarações de amor, nasceram cinco filhos, dois deles brasileiros. O patriarca, após a morte da esposa, por mais de trinta anos duelou com a vida. E quem tentava apaziguá-lo sofria retaliações. Ríspido, exaltado e rude, deixou à descendência um endurecimento natural dos corações. Um jeito contido e desconfiado no trato com as pessoas. Entre os Kowalski, as mulheres pouco se destacavam. Comiam por último e lavavam os pratos. Obedeciam aos irmãos e guardavam a discrição no vestir. Alícia, a caçula, evidenciava o maior carisma e desenvoltura entre as figuras femininas da família. Não foram poucos os atritos com o pai e o avô. O tempo correu, a menina cresceu e os desacordos tornaram-se ódio. Saiu de casa para se aventurar em paixões e seu nome, de um modo forçoso, foi esquecido.
Alguns objetos assumem, ao longo da vida, a condição de amuletos. Quando estão por perto, há uma sensação maior de confiança, um encorajamento extra, e ainda certa dose de invulnerabilidade. Quando distantes, desordem e temor. Em alguns objetos também há sentimentos arraigados que se manifestam com fulgor, ressoando ecos e sussurros do passado de quem os possuiu. Reminiscências de toda espécie ocupam a vida de quem agora os carrega. Alícia nunca freqüentou antiquários. Nunca foi a feiras de antiguidades, não tinha gosto por brechós e alfarrábios. Jamais conseguia recordar o passado, jamais sentia saudade, mas sempre ressentimento. Ousada, por vezes tentou enfrentar os assuntos pretéritos que mais lhe incomodavam. Temia o porvir porque tinha contas a acertar consigo. Estava em Varsóvia apenas por isso.
Enrolado num velho pedaço de pano, Alícia guardava na bolsa um camafeu de ônix, com uma flor de cinco pétalas talhada com perfeição. Pertenceu à sua avó, falecida precocemente, antes dos cinqüenta. O avô o guardou pelo resto da vida como a única lembrança concreta da terra natal, onde conhecera a esposa de olhos de bruxaria azul. Descobriu a jóia num pequeno baú, no sótão do casarão. Trancafiado, encontrava-se junto a antigos pertences do avô, como um tabuleiro de xadrez arranhado, ainda com todas as peças de vidro em tons esverdeados e cinzentos. Encontrou também diversas fotografias desbotadas, e algumas coloridas. Uma delas, a sua. Sorridente, cabelos compridos, numa época e lugar que não conseguiu lembrar. Estremeceu por não saber o que sentir. Os ombros enrijeceram, os pulsos resfriaram e a cabeça doeu. Não teve fome por todo aquele longo dia.
*** **** ***
Meses adiante, o talismã repousava em algum lugar no fundo do Vístula. Alícia não sabia, mas fora justamente naquela ponte por onde o arremessara que o avô, tenso e desconcertado, o ofereceu à moça e ingênua Irena, vinculando de uma vez por toda suas trajetórias. A jovem resolveu andarilhar pela cidade e absorver de uma vez por todas o estímulo reconfortante que surgia. Numa ruela ao lado de uma igreja do século XVII, tendo em mente uma miríade de imagens e palavras perdidas no tempo, debruçou-se em lágrimas como nunca, copiosamente, até enfraquecer-se, rendendo-se ao chão.
O sol se escondia e a chuva já ameaçava os passantes. Num pequeno restaurante às margens do rio, Alícia presenciou um esbelto pianista iniciando as obras de Chopin aos turistas fascinados. Lembrou do casarão e aquilo não mais lhe trazia angústia. Sim, em breve começaria a chover.
De longe ele a observava. Cuidou para que as ruas por onde ela passaria estivessem enfeitadas e livres de qualquer infortúnio. Queria vê-la contente. Queria vê-la em trajes coloridos, com um andar circulante, não mais retilíneo. Por isso abriu os espaços para ela passar!
Esforçou-se para interromper os fluxos da cidade cáustica. Era fabulosa a imagem das avenidas desertas, cobertas de mensagens escolhidas nos livros da história dela, em letreiros luminosos gigantes! Enormes telas e placas saudavam a presença dos cabelos mais gentis, dos hábeis braços de dourado sensualíssimo. Em cada esquina ouvia-se uma melodia diferente. Todas elas serviam à passagem dela, que brincava sob as cerejeiras, na acústica das praças. Choveu e parou. O céu luziu, os cabelos brilharam e a roupa secou.
Mensagens chegando, boas notícias, tudo o que ela gostaria ter em mãos. Ali, o cosmo presente, ao toque, aos ouvidos, no fundo dos olhos. O moço acenou, a menina deu-lhe um broche. Tinha todos os sabores a lhe saciar. A escuridão não lhe chegaria perto; as quedas se dariam em plumas; o choro só viria da saudade, que é o mais bonito que há. Perigo algum vai prevalecer!
Na frente da vila, os cães a saudaram. Vizinhos sorridentes e suas tarefas, o retorno do calor, a sede na garganta. Deliciou-se com o gelo na água filtrada. Despejou-se no sofá, o telefone não tocou.
Não esteve na rua, nunca saiu por aí, nem viu o mundo aberto para si. No ocaso do verão, no entanto, a ciranda da graça resolveu bater-lhe à porta.
Teve um presságio de dias bons, um aperto por dentro que indicava grandes expectativas! Boas novas, uma agenda inteira de novidades! A empolgante retomada dos planos, que todos têm aos poucos, para ela se concentrava ali, num instante só, culminando no escancarar da janela, por onde um beija-flor resolveu entrar. E despida pela casa, pôs as dúvidas e preocupações no cesto de roupas sujas. Banhou-se com demora, ensaboando-se com cheiros florais. Depois de toalhas brancas e macias e passos molhados no assoalho, não tinha mais a fazer. Resolveu vencer o tempo com sua atividade predileta, trancou-se em seu quarto e, sozinha, foi feliz a noite inteira, aguardando o dia seguinte como quem espera uma carta que ainda não chegou.
Distante dali, deitado sobre um fino lençol no chão frio da varanda, tinha a certeza que pensando nela conseguia protegê-la. Ergueu-se orgulhoso por manter tão nobre sentimento mesmo em épocas difíceis. Foi cumprir seus assuntos menores. Cantarolava a mesma canção que a fizera dormir a quilômetros dali, e sentiu-se majestoso quando a noite chegou e seu peito não esmoreceu. A distância não o vencia, nem a dureza da labuta e a incerteza dos seus próprios passos. Ela estava em paz, ele a sentia. E por isso, brindava à vida com imensa gratidão. Sem cansaço, corpo firme, olhos atentos. Amor em expansão.
Dando um salto da cama, acordou assustado. Demorou um pouco para erguer-se e, quando o fez, caminhou até o banheiro e lavou o rosto com bastante água. A pressão da torneira era forte e por isso molhou o chão. Como não tinha pano algum por perto, retirou a própria camisa para secar o piso. Ao levantar-se, olhou-se no espelho. Estava fora de forma. Na verdade nunca tinha sido atlético, mas de um certo tempo para cá sentia-se flácido, com os músculos desanimados. Retornou ao quarto. Procurou embaixo da cama por um par de tênis, e dentro do guarda-roupa escolheu uma calça de moletom e um casaco com gorro. Sentou-se no chão por um momento, com as mãos nos joelhos. Sentia o frio do assoalho tomar-lhe o corpo e arrepiar-lhe os pêlos da perna. Puxou a colcha da cama, envolveu-se nela e permaneceu naquela posição por mais um pouco de tempo. Imaginando coisas, buscando a compreensão de outras. Sozinho, no chão, em completo silêncio.
*** **** ***
No retorno à calmaria após a sétima badalada do sino de Saint Germain-des-Prés, um velho homem pára por um instante à frente da banca de jornais, com caixas de aveia em flocos e frutas dentro de sua sacola reciclável. Estava agasalhado, ventava e seus finos cabelos brancos voavam por sobre os óculos arredondados. Procurou as manchetes na capa dos jornais. O Le Monde estampava: “Governo de Israel exige esclarecimento à França”. O Libération dizia: “Israel na ofensiva outra vez”. O velho preferiu o Le Figaro, que bradava: “Terror chega à França”.
Paris seguia seu ritmo, mas parte de seus habitantes sentia-se incrédula diante da onda de revelações que a imprensa noticiou nas últimas quarenta e oito horas. O Mossad, serviço secreto de Israel, havia feito buscas na África do Norte, com o intuito de desmantelar uma rede que entregaria mísseis Mistral modificados ao Hezbollah e à Jihad Islâmica. De fabricação francesa, as armas seriam intermediadas pelo governo da Líbia, numa operação que envolvia a compra de milhões em material bélico junto à empresa também francesa MBDA.
Um informante relatou o plano à embaixada israelense em Paris, sem avisar anteriormente ao governo francês. Em menos de um mês a espionagem israelense identificou os responsáveis pela conexão e partiu para a caçada. Pessoas foram mortas em Paris e Marselha, e bombardeios foram realizados em Gaza e no sul do Líbano. Porém, numa ação atrapalhada na Argélia, dois agentes do Mossad foram descobertos e aprisionados, após terem seqüestrado, torturado e assassinado um jovem argelino que estudava na França. O jovem era apontado como o mentor do plano e um dos líderes de um grupo estudantil que, com base na França, defendia os ataques a Israel e fornecia treinamento lingüístico e cultural a membros dos grupos de resistência citados, além de angariar fundos para a causa palestina e articular combatentes e estratégias na França, África do Norte e Oriente Médio. O plano para a entrega dos mísseis seria sua ação mais audaciosa, um verdadeiro divisor de águas no futuro do grupo que aspirava trazer para junto de si toda a inteligência árabe-muçulmana na França.
Tudo foi por água abaixo. Os governos dos países envolvidos, em meio a trocas de acusações e ameaças, tentavam resolver a crise que se instalou. As populações não ficavam atrás. No Magreb, pedia-se a morte dos agentes israelenses capturados; em Israel, o coro era pelo retorno dos agentes e o fim de ações terroristas. A direita francesa, numa manifestação que seguia rumo ao Palácio do Eliseu, pedia a extradição imediata de todos os árabes em situação irregular no país. Por pouco não clamavam o retorno de São Luís para que se erguessem novamente as bandeiras cruzadas ao toque de clarins. A esquerda pedia o fim da ocupação israelense sobre os territórios palestinos e uma pesada investigação sobre a indústria armamentista francesa. Os dias mais nebulosos da república pareciam voltar. O ódio de uns e a vergonha de outros manchavam de cinza o azul, o vermelho e o branco.
*** **** ***
Eugene passa com o carro longe das agitações do Centro. Segue na direção de Rouen, a caminho de Le Havre. Quer ver o mar. Comemorou no dia anterior o aniversário de Fabrice, embora estivesse perturbado demais para sentir-se contente. Tudo aconteceu com tamanha rapidez que Eugene ainda não tinha assimilado os fatos. Mais tarde ligaria para Omar Azzouzi. Este sentia-se extremamente preocupado desde que voltaram da Argélia. Tinha medo de ser perseguido, tinha medo que seus filhos também sofressem perseguições. Omar tinha um grande caráter, nada sabia, e nem poderia. Eugene e Anne-Marie ligaram para ele logo após o incidente a caminho de Sidi Okba e o reencontraram em Argel. Os três prestaram depoimento à polícia argelina e novamente o fariam para a polícia francesa. Com a exceção dos cinco anos de Fabrice, os últimos dias tinham sido demasiado desgastantes. Por isso o rapaz seguia para o mar.
Deixando o carro próximo a um quebra-mar, ajeita o moletom e põe o gorro cobrindo a cabeça. Sai do carro observando o lugar e caminha até a praia. A brisa é forte, talvez seja anúncio de tempestade. Não conhece muito bem os sinais da natureza, nunca deu atenção a eles. Alonga as pernas e os braços e inicia uma corrida com passadas curtas, controlando a respiração e uma incrível vontade de chorar. “O mundo está se acabando...”, pensou. “Em que lugar poderia Fabrice crescer e ser feliz?”. Nas areias da Normandia Eugene marcava seus passos firmes. Ele esperava que também por lá ficassem seu abatimento e desesperança, levados pela maré alta do mar.
*** **** ***
Foi um duro golpe para ele, afinal, o pobre coitado não tinha culpa alguma. E parecia gostar dela verdadeiramente. Gostava de um jeito tonto, com poucas atitudes diferenciadas, poucas surpresas e sem conversas de grande alcance, mas ele nunca tinha lhe faltado. Apareceu com uma boa índole, um corpo atraente e uma vida estabilizada num momento oportuno e, quando isso tudo não bastou, foi deixado com os mesmos atributos, misturando desapontamento e indignação.
Anne-Marie achou insustentável aquele relacionamento. Já não tinha mais razão de ser. Aliás, poucas coisas em sua vida atual poderiam receber esse rótulo. A moça pediu demissão do emprego, fechou contas em banco, quebrou cartões e doou roupas, livros, sapatos e perfumes. Cancelou o contrato do aluguel e levou documentos e o que mais restou para a casa dois pais. Desfez-se do que pôde, sentia-se mais leve. De fato estava. Despediu-se de alguns poucos amigos e, sem maiores explicações, ao melhor estilo de Baudelaire, assumiu-se flâneur por um dia, e até foi passear de barco pelo Sena. Parecia uma turista qualquer ao lado de outros tantos, já que fazia mais de dez anos que não se jogava assim em Paris, como se nunca fora apresentada a ela. Pensou que, mesmo pelas ruas e praças que aprendeu a amar, viveu num circuito mecânico, sendo levada por um autômato regulado para fazer as escolhas mais úteis. Cansou de utilidades. Redimiu-se de seus medos pretéritos, vislumbrou o que pôde até a noite e se despediu da cidade.
Como se não bastassem as notícias sobre Said, assassinatos, terrorismo, omissão do governo (...),desde que retornou à França, por incontáveis vezes lembrou do que disse a Eugene na noite que antecedeu a ida para Biskra: “Estou com a impressão que vou deixar alguma coisa naquele lugar, para sempre”. E, já em casa, nesse pequeno pedaço de tempo que reservou para pensar nisso outra vez, sentiu que havia chegado à compreensão daquilo. Ao lado da mesquita em ruínas, na estrada para o deserto, logo após de ter-se revestido de pavor, assegurou para si que nunca mais teria receio em ousar. Nunca mais as incertezas iriam paralisá-la numa zona inoperante. Abria mão de seu viver confortável, pois este se encontrava longe demais do máximo que poderia alcançar. Admitia agora que a vida é costurada por riscos diversos, e que o maior deles é prosseguir aquém dos sentimentos plenos.
*** **** ***
Semanas depois, em decorrência dos acontecimentos políticos e estando diretamente envolvido com a questão, Eugene faria sua exposição num salão reservado na Galerie Nationale du Jeu de Paume. O rapaz dedicou-se com esmero na escolha das melhores e mais significativas fotos que iram compor a exposição. Selecionou as quais utilizaria em preto-e-branco e aquelas que manteria em cores naturais. O diretor de seu curso, agora seu mecenas, empolgou-se com o projeto apresentado e tratou de promover com enorme zelo aquela que ele já chamava de “maior exposição que a nova arte fotográfica da França já produziu”.
Ao chegar ao local, jornalistas da mídia especializada e grande parcela da burguesia erudita parisiense o esperavam. Nunca havia recebido tantos abraços e saudações. Encabulou-se num primeiro momento, todavia, após dois drinques e bate-papos com grandes amigos e parentes que lá também se encontravam, conseguiu relaxar. O salão estava muito bonito e Eugene orgulhou-se por ter conseguido realizar esse trabalho. A vaidade que sentia o incomodou um pouco, mas logo viu que ela poderia ser controlada, pois se ela trouxesse pessoas interessantes para próximo e lhe permitisse realizar outros feitos como aquele, não poderia ser ruim. Uma faixa na parede central trazia o nome da exposição: “Oubliez Camus!”.
- Senhor Lerond, não tem receio que o considerem um oportunista no meio dessa crise política? - perguntou-lhe um repórter londrino.
- Não mesmo – com firmeza. - A exposição já estava programada antes do episódio lamentável. E, afinal, tudo que está aqui eu realmente vi.
- “Esqueça Camus!”, o que pretende com esse nome, senhor?! – insitiu o repórter.
- Nada muito elaborado. Só queria dizer que estive na Argélia e não encontrei estrangeiro algum – com ironia. Em seguida, afastou-se.
A alusão ao clássico de Albert Camus era evidente. Porém, o que impressionava os que contemplavam as fotografias ampliadas era a fantástica capacidade que o artista teve de captar expressões de alegria e suavidade, nos rostos dos homens, mulheres e crianças mais humildes que encontrou, envoltos desde situações de grande esforço físico até a ingenuidade de pequenos gestos, ou ainda atrelados às suas rotinas mais comuns, como um momento de oração ou o preparo de uma comida.
Eugene pensava em Said e no impacto positivo que suas fotografias poderiam causar diante da fartura de denúncias caluniosas que os muçulmanos franceses sofriam. Membros da comunidade islâmica estavam presentes, muitos o agradeceram calorosamente pela iniciativa. “O pânico parece mover a História”, refletia ele quando foi abordado pelo amigo de trabalho, professor de literatura, justamente quem escreveu os curtos textos que acompanhavam cada foto.
- Satisfeito?
Olhando ao redor, com os braços cruzados, Eugene responde com altivez:
- Sim. É um grande salto para quem começou a fotografar como terapia – e sorriu.
Fabrice correu em sua direção e agarrou-lhe a perna. Pegou o filho no colo e o levou até a mesa de frios. Na verdade, não era necessário revelar, mas desejava naquele salão a presença de alguém com quem ele dividiria os louros por essas idéias e imagens. Alguém que estava a seu lado quando todas aquelas inspirações despontaram no âmago de sua sensibilidade. Alguém que se foi.
*** **** ***
O pequeno barco afastava-se da margem do lago. Um bando de pelicanos sobrevoou sua cabeça e foi embora na direção da vila.
Desde Viena ela acompanhava o Danúbio, e ali no seu delta, nos confins romenos, parecia deslumbrada ante a perfeita integração entre os camponeses e a natureza. O cenário era de tal maneira esplêndido que a jovem parecia não conseguir conter os sentidos. Os ruídos dos bichos, o céu espelhado na água, o cheiro dos arbustos e da grama molhada, qualquer pequena vibração da vida lhe excitava a pele. Estava num altíssimo estado de exaltação!
Satisfeita com as fotografias que já havia tirado no lugar, ela guarda a câmera na bolsa, põe os óculos escuros e deixa ser levada pelo simpático remador. Retira um canivete do bolso da calça e começa a riscar seu nome no fundo do barquinho. Depois de riscar a metade do nome, ela percebe que o dono do barco a observa e, constrangida, tenta desculpar-se com gestos e algumas palavras que aprendera em romeno. O homem não se importou, e sacudindo a mão direita em sua direção permitiu que ela continuasse. “Marie”, terminou. Agradeceu ao remador com um sorriso, passou um pouco da água do rio no rosto e ajeitou-se na proa para que pudesse receber o vento que vinha em sua direção.
O dia despertou manso. Quase não havia barulho no entorno da casa dos pais de Said, tudo amanheceu calmo como calmas são as manhãs em que se acorda cedo e bem disposto. Eugene saiu e foi aquecer-se ao sol. Tomava um copo de leite e comia um pedaço de pão com mel. Ficou sentado no gramado próximo à entrada da casa, com o pensamento longe, por dez minutos, contemplando as formigas que transitavam pela grama até que lhe chegou Anne-Marie.
- Ansioso?
- Não, só pensativo.
Anne-Marie põe as mãos na cintura e fica a observar as redondezas. A luz do sol atrapalha sua visão, seus olhos ficam apertados. Eugene segue sentado, o copo em suas mãos já está vazio e ele tenta interromper as trilhas das formigas com o fundo do mesmo. Anne pergunta-lhe:
- Dois dias você acha suficiente?
- Acho que sim. O Said disse que talvez a estrada para Sidi Okba esteja fechada nas cercanias da cidade. Na certa alguma medida deve ter sido tomada para controlar o acesso à região.
- Será que iremos lá à toa?
- Nada é à toa, Anne.
Após essa resposta, o rapaz calou-se e apontou o olhar para o bosque nos fundos da casa. Anne achou Eugene um tanto desanimado. Ou, quem sabe, realmente pensativo em questões só suas. Não quis levar a conversa adiante. Ouviu o mexer de coisas dentro da casa e pensou ser Said preparando-se para a saída.
- Bem, vou lá dentro ver se precisam de mim. Ânimo, rapaz! – ela diz voltando-se para Eugene, que apenas estica os lábios num riso contido, mostrando-se ainda focado nas suas introspecções.
Um rádio é ligado na sala da visitas. Abrem-se as janelas. O locutor avisa que será um dia quente e começa um louvor a Deus em árabe: Subhana Rabbil Azim - Glorificado seja meu Senhor, O Ingente. Sami´a Allah liman hamidah - Deus ouviu aquele que O louvou. Rabbana lakal hamd - Louvado sejas, Senhor nosso! Allah Akbar - Deus é Maior!
Eugene se levanta, estica o corpo com os braços abertos, expulsando a preguiça. O dia estava cheio de promessas.
*** **** ***
Ao passar pela praça principal do bairro, no fim da rua do comércio, a caminhonete dirigida por Said entra no campo de visão de um dos homens que os observavam na noite anterior, que neste momento se achava numa loja de artigos em couro. O homem, alto e com uma mochila nas costas, sai com rapidez da loja, assustando o menino que tirava o pó das sandálias penduradas numa das paredes.
Ágil, já está dentro do carro e logo em movimento. Acompanha o percurso da caminhonete com o olhar fixo e, vinte segundos depois, apanha o segundo homem, que visitava uma loja de móveis do outro lado da praça.
O Ford dos dois persegue de longe a caminhonete de Said por uns vinte minutos, até a saída de Biskra. Ao chegarem próximo ao cruzamento da estrada que os levaria para o sul, o homem que sentava ao volante diz ao amigo:
- Fiquemos aqui por enquanto. Essa estrada é retilínea, não há como mudar de rota. Deixemos que ele se distancie à frente. Em seguida, vamos atrás dele acelerados e o pegaremos no vazio da estrada, sem testemunhas por perto.
O outro assentiu com a cabeça. O Ford parou na sombra de um prédio e na vazia estrada para o deserto seguiam os três, ignorando completamente aquela perseguição.
Após abastecerem o veículo, Said pergunta:
- Com a imensa quantidade de fotos que vocês já tiraram, já têm idéia de como será essa exposição?
- Olha Said – responde Anne – não tenho a menor idéia ainda. Sei que chegarei com o material e o pessoal do Institut de la Photographie vai me ajudar.
- Eu já consigo imaginar alguma coisa. Tenho uma mera impressão de como organizarei as imagens – diz Eugene, após ter falado tão pouco naquela manhã.
Desde que chegaram à Argélia os franceses não soltaram as câmeras. Fotografaram de tudo, em todos os momentos e lugares por onde passaram. Said pediu que o enviassem depois uma coletânea de suas fotos, para que fizesse um álbum e guardasse no seu apartamento em Paris. Disse também que escolheria umas quatro ou cinco fotos, mandaria emoldurá-las e presentearia uns amigos.
Said gostava mesmo de falar. Tudo para ele tinha um porém, cada mísero casebre que eles viam, cada cabrito, cada árvore ou ave no céu tinha um complexo significado para o argelino. Em todos os assuntos que conversava ele impunha um viés questionador. Nada, nem as mais simples amenidades, nem as piadas curtas que ele gostava de contar subitamente escapavam do seu modo áspero de desconstruir a essência das mais concretas e absolutas realidades. Por outro lado, sempre procurava demonstrar solidez nas suas mais abstratas e incertas sensações. Por um instante, Eugene pensou se não fora o ar que vaga através daquela terra que fizera Derrida moldar sua filosofia – para Eugene, miserável filosofia. O rapaz começava a considerar Said um sujeito perturbado, alucinado por pequenos mistérios e grandes acepções acerca da existência. Preferia não encará-lo nos olhos, mas sabia que aquele homem carregava muitas amarguras sob o manto de seu carisma.
Anne-Marie aproveitava os devaneios de Said para fazer em silêncio suas ponderações de vida indefinida. Tinha tudo na França, família, um belo namorado, um futuro promissor, amigos para diversos afazeres. Entretanto, tamanha era a contradição que percebia entre a vontade de ter e a vontade de ser que não achava ser possível conquistar algo além do ordinário. Odiava relógios, desde pequena, porque eles nunca param por um momento e nem voltam atrás. Como podemos aceitar essa condição de constância eterna? Seria o acúmulo de bens e pessoas a real felicidade? Onde estariam, então, os recomeços? Desse jeito, em momentos angustiantes, como essa pausa para ponderar o presente dentro dessa caminhonete numa estrada para o deserto, ela percebia que rumava para o sem-fim, e incapaz de decidir com lucidez o percurso. Sentia-se levada por uma coleção de respostas, a tudo e a todos dava respostas. Nunca tentara formular suas próprias perguntas. Nunca, até então.
*** **** ***
- Ele está parando! – empolgado, o homem no banco de carona aponta com o indicador a caminhonete de Said, aproximadamente um quilômetro adiante. O motorista do Ford desacelerou abruptamente, dando tempo de pensarem em alguma coisa.
O carro parou no acostamento da estrada. O motorista sai do carro e abaixa-se, como se estivesse averiguando os pneus. O outro segue dentro do carro, avistando pelo binóculo os passos dos jovens viajantes.
Os três decidiram parar e visitar uma mesquita bastante antiga às margens da rodovia. Possuía um minarete em ruínas e as tradicionais entradas em arco e colunas com pequenos relevos gastos pelo tempo. Após circundar o edifício fotografando-o, encontraram um único homem por ali, nos fundos. Aparentava ser um velho zelador. Ele trabalhava numa tábua de madeira, parecia fazer inscrições nela. Cumprimentaram o velho e voltaram à frente. Said resolveu entrar no templo e fazer uma oração. Os outros dois ficaram de fora a fotografá-lo, entrando e, em seguida, rendendo graças de pé, de joelhos e agachando-se, como o costume.
Quando voltavam para o carro, surge bruscamente o Ford, estacionando de qualquer maneira na entrada da mesquita e levantando uma nuvem de poeira. Os dois homens descem velozes e um deles, apontando uma arma na direção de Eugene e Anne-Marie, grita em francês: “Fiquem quietos senão morrerão!”. O outro, também armado, corre para dentro da mesquita e, aos berros, parece dar ordens em árabe a Said.
Logo, o homem surge empurrando Said pelas costas, com a arma apontada para sua nuca. Said parecia tranqüilo, não demonstrava estar surpreso com esse evento inesperado. Os franceses, no entanto, mantinham-se atemorizados, quebrando a tensão e rigidez dos músculos apenas quando os desconhecidos empurram Said com brutalidade no banco traseiro do Ford e seguem em disparada na direção de Biskra, após um deles fazer disparos contra os pneus da caminhonete.
*** **** ***
Sendo ridicularizado e sofrendo agressões, Said nada diz. Os homens misteriosos parecem extremamente contentes e, após passarem pela entrada da cidade, pegam uma outra estrada rumo ao desconhecido.
Depois de cuspir no rosto do agressor que lhe acompanhava no banco traseiro, Said leva um golpe na cabeça com a arma e de imediato sente o sangue quente correr pela testa. O homem lhe fizera uma pergunta e ele se negara a responder. O homem ofendera o Profeta e Said não se conteve. Com o golpe, cai de cabeça no chão do veículo e, sentindo-se tonto, novamente não demonstra surpresa quando enxerga ante seus olhos uma folha de papel com anotações, amassada, timbrada na parte de cima com uma escrita semítica e uma Estrela de Davi azul.
Era um avião pequeno, de vôos domésticos. Anne-Marie levantou suspeitas quanto à sua obsolescência, Eugene sentiu mesmo foram calafrios.
Omar conseguira um guia confiável: Said Mansouri, um amigo de seu filho, estudante de Ciências Políticas na universidade de Constantine que fazia intercâmbio de um ano na Sorbonne. Estava de férias e voltou para rever os pais, donos de uma oficina mecânica e de uma pequena agência de turismo em Biskra. Como ele mesmo contava aos amigos franceses, seus pais “ganhavam dinheiro com passeios de jipe por lugares ermos e amedrontando os viajantes com histórias sobre os tuaregues”. Omar o conhecera em Paris, na ocasião do aniversário de seu filho Malik, considerava-o um bom rapaz.
Na ausência de calmantes, Eugene comia barras de cereais para tranqüilizar-se durante a viagem, uma atrás da outra. Anne achava aquilo engraçado mas se esforçava para não rir do amigo. Olhava pela janela e avistava os montes Atlas onipotentes, como se de fato, feito o mito grego, segurassem o céu rosado do fim da tarde. “Que país imenso”, pensava. Em pouco mais de uma hora de viagem viu cidades de todo tipo, extensas áreas verdes, montanhas e logo estaria às portas do Saara, num lugar que jamais pensou visitar na vida.
Há muito a jovem se esquivava de realizar essa enorme vontade de ganhar o mundo. Sempre tinha um curso a fazer, contas a pagar, um bom emprego a conseguir. Entretanto, jamais se afastou completamente dos pequenos grupos e espaços onde poderia, num futuro incerto, abrir as portas aos seus devaneios mais inviáveis. Desde que começou a entender a engrenagem das coisas, forçou a si mesma a aproximar-se do que ela denominou de “acasos repentinos”, conjunto de ocasiões ímpares que promovem as mudanças mais cruciais na história de cada um. Sim, ela carregava a certeza que na vida tudo que se almeja se mostra oportuno num momento qualquer, e a sapiência magna é sair de casa, conhecer gente, andarilhar por aí, para que não se perca o trem das grandes viradas e para não se acomodar nos descuidos da rotina.
Sem repousar por um instante sequer, Eugene desce do avião no modesto aeroporto de Biskra. O clima traz um mormaço estranho, pesado. Já não há nenhum sinal do frescor do litoral. Sente-se fadigado só em pensar nas muitas horas que vai passar neste lugar. Instintivamente imagina-se na piscina da casa dos pais de Catherine, banhando-se sem preocupações com o amanhã, tendo Fabrice como companheiro de mergulhos e brincadeiras. Imagina-se deitado num colchão inflável, sobre a água, alimentando-se da luz do sol e saboreando uma gelada e suculenta limonada. Catherine pediria que ele fosse embora antes que o namorado militar chegasse, o homem era ciumento. Então, ele se despediria do filho, dos antigos sogros e dirigiria seu velho carro para Saint-Cloude, onde sentaria num bar com os amigos para tomar uma cerveja holandesa e ver o futebol. Depois, subiria para seu apartamento e prepararia para o dia seguinte as lições de equações do segundo grau dos seus alunos que tanto o adoravam.
Um tapa sutil nas costas o traz de volta, e todas as delícias que pensava se perdem num rápido desânimo pelo cenário que o cerca. Após ouvir algumas frases entusiasmadas de Anne-Marie, recompõe-se. Lembra que não é triste estar ali, pelo contrário. Esses dias na Argélia o farão ir adiante, em qual sentido ainda não sabia, mas já sentia um bem-estar restaurador por ter se disposto a encarar esse desafio de frente, sem os receios de outrora.
- Olha! – Anne aponta na direção de um rapaz baixo, bem vestido, encostado num carro ao lado de belas palmeiras. – Aquele deve ser o Said!
*** **** ***
Passearam pelo centro de Biskra tendo Said ao volante. O rapaz era bem falante, divertido até. Tinha um francês irretocável e procurava saber por onde os dois viajantes se divertiam em Paris, quais os clubes que freqüentavam, que tipo de música ouviam. Said se mostrava uma companhia bastante agradável. Muito culto e atencioso. Falava sem tropeços sobre qualquer assunto. Deveria ter vinte, vinte e dois anos, mas demonstrava uma maturidade impressionante.
Eugene não queria reconhecer, mas sentia-se inibido com a desenvoltura de Said. Por outro lado, Anne-Marie pensava no seu íntimo que aquele rapaz, de pouca beleza mas interessantíssimo e elegante, numa outra circunstância poderia ter com ela um affair.
Após comprarem água, comida, pilhas e outros utensílios, Said diz que os levariam para a casa de seus pais. Seriam seus convidados ao menos por aquela noite.
*** **** ***
Próximo ao Hotel Suleiman, dentro de um Ford quase despercebido entre as sombras, dois homens conversam. Um deles tem um binóculo em mãos.
- É ele, não é?
- Sim, é ele mesmo.
- E quem são os dois que o acompanham?
- Não faço a menor idéia. Vamos deixá-los irem embora e depois faremos uma sondagem aqui pelo comércio.
- Não acha melhor segui-los?
- Não, não. Ele vai ficar por aqui algum tempo ainda, isso é certo. Não é preciso pressa.
O carro de Said passa ao lado deles, em sentido contrário.
- O que faremos depois? Procuremos algo para beber!
- Vai ser difícil. Esses idiotas não vendem bebidas! Ao menos em Beirute era fácil encontrar um conhaque barato...
*** **** ***
No jantar em sua casa, com seus pais e irmãs mais novas, uma família de berberes arabizados, Said serviu carne de carneiro assada, com tomates, cenouras e ameixas secas. Para beber, chá gelado de hortelã. Não tinham riqueza, mas viviam uma vida confortável se comparada com a da maior parte dos argelinos. Said aprendera a dar valor ao trabalho, por isso não dispensava o labor mesmo nas férias. A vida era custosa na França, ainda faltavam seis meses de estudos e ele não gostava de explorar as finanças do pai.
Said separou lanternas e duas barracas de acampamento para levar. Também fez questão de tirar da própria casa as roupas de cama que usariam nos próximos dois dias, tempo que ficou acordado para a visita a Sidi Okba, a pequena cidade onde aconteceram as mortes misteriosas. Os franceses tentaram privar-se de mais essa cortesia e Said não aceitou qualquer recusa. Disse que ficaria ofendido, portanto, esqueceu-se a questão. Antes de dormirem, conversaram na sala de visitas sobre as pretensões de cada um para o futuro.
- E você Said, quer ir para a França depois de formado? – pergunta Anne-Marie.
- Não sei. Acho que eles não vão me querer por lá – rindo, despojado numa cadeira de balanço e com as mãos por trás da cabeça.
- Realmente – Eugene toma a palavra - enquanto tivermos Sarkozy e sua corja no poder, a França não é um bom lugar para magrebinos.
- O problema não é Sarkozy – retoma Said - como também não era Chirac ou Mitterrand. O que acontece é que a imensa maioria dos ocidentais, não só os franceses, não tem a capacidade de ver os árabes, berberes, turcos ou qualquer tipo de muçulmanos como semelhantes. Estamos à margem da civilização judaico-cristã, às margens do próprio conceito de civilização. Somos ainda bárbaros e incapazes de viver em paz, por isso aceitam trocar nossas riquezas apenas por armas e mais exploração – diz isso tudo como um desabafo, porém, sem exasperar-se.
Anne e Eugene não ousam dizer nada, mas era notório em seus semblantes como aquelas palavras tinham força e poder de convencimento.
- Aposto que seus vizinhos vêem com maus olhos uma convivência pela diferença e crêem não ser possível dividir nossos gostos – e aponta para o aparelho de CD que toca R.E.M. Em seguida, solta uma risada diferente de todas as que tinha soltado ao longo do dia.
- Essa é a minha favorita – continua, fechando os olhos e balançando a cabeça suavemente, acompanhando os acordes do refrão de It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine), em pé, quase como num transe.
As ruas do subúrbio de Argel refletem bem a conturbada história política recente do país. Muros pichados com palavras de ordem, citações do Corão, algumas expressões em francês, idioma ainda bastante difundido no país através da parcela mais culta da população. A pobreza é predominante nas ruas, ainda que abaixo do chão haja tanta riqueza em petróleo e gás. E este chão, como tantos outros, sustenta a vivacidade de pessoas que insistem em amparar-se na busca de si próprios. Em meio a esse alvoroço urbano com mais de mil anos de cultura, Eugene e Anne começam suas sessões fotográficas, já no segundo dia no país.
- Sabe, tirar fotografias não era bem o que eu imaginava fazer há algum tempo atrás. E ainda acho a posição do fotógrafo bem peculiar nesse mundo de olhares tantos – sentencia ele, sentado à sombra de um bazar. - É mesmo. Malditos esses celulares e câmeras digitais! – com ironia, ela confirma.
Um menino passa pelos dois, aparência paupérrima, ergue um pedaço de madeira que estava no chão e finge ser uma arma. Faz uma pose frente ao casal de estrangeiros. É a máxima do poder. Ainda na infantilidade daquele menino, uma arma na mão vale mais do que mil palavras... Mais um flash.
Anne-Marie sonha em trabalhar para a National Geographic Society, retirando as paisagens de suas distâncias invencíveis e levando-as às casas das pessoas que as anseiam. O belo lhe atrai, a contemplação do belo é o que lhe seduz. Anne-Marie, com sua primeira câmera, aos dez anos de idade, fotografou as montanhas perto da casa de seus pais em Toulouse e as nuvens de chuva que as cercavam. Anne-Marie, ultimamente, fotografou demais seus encontros com o robusto e ariano namorado. Anne-Marie andou perdendo belos fins-de-tarde.
Eugene, a cada dobrar de esquina, tenta visualizar a arquitetura local, o comércio espalhado pelas calçadas, o artesanato, carros antigos, bicicletas que carregam de tudo, comerciais de marcas mundialmente famosas inseridos naquele cenário de exclusão. Seu olhar foca sempre a relação “homem e suas coisas”. Compreende o mundo através de seus símbolos, gosta de introduzir os indivíduos, seus sentimentos e expressões corporais nessa onda frenética de representar todo seu imaginário ideológico em objetos, construções e pequenos outros signos do cotidiano.
Após comprar um jornal, Omar chama os dois para o Renault e diz que já é hora de voltarem ao hotel.
Da janela do veículo, os amigos atentam aos vários monumentos da Guerra da Independência que se espalham pela cidade. São as cicatrizes do espírito argelino. Precisam estar ali para que interfiram no ânimo e na esperança do povo, e agora, naqueles franceses, causam poderosas reflexões sobre as desigualdades humanas, suas intolerâncias e ganância destruidora.
Enquanto Omar discorre sobre a história daqueles lugares para Eugene, Anne-Marie acha-se desconectada dos dois, abstraindo sua presença. Sozinha no banco traseiro, dá volume ao pensamento, sente-se absorvendo aquela terra e suas particularidades. Pondera que algumas imagens que carrega deveriam dar lugar às aspirações que interiorizava. Era como se o sirocco, que vinha do deserto e soprava áspero lá fora, arranhasse a aparente limpidez que eram seus dias na França.
Eugene, então, passa a fitá-la. Nutria por ela uma atração velada. Ao seu juízo era uma mulher confusa e, por isso mesmo, ainda mais admirável. Os cabelos e olhos cor de café, a baixa estatura – “do tamanho que toda mulher deveria ter” -, o corpo esbelto, generoso nas partes mais atrativas, o rosto lindamente simétrico e de traços fortes, nada disso para ele sobressaía à destreza de suas ações e à exuberância de sua conduta, sempre firme, justa e eficaz. Eugene teve vontade de segurar-lhe a mão, tenra e pálida, repousada sobre o joelho, quase esquecida por ali. Não tem essa desenvoltura. Por vezes, desde que a conhecera, pensou em chamá-la para ir ao teatro, para passear nos parques ou ir a qualquer lugar onde pudessem unir as mãos e aproximar as vozes. Sussurraria em seu ouvido, jamais diria vulgaridades, mas palavras com uma doçura que a encorajaria a decidir-se por suas vontades mais imediatas, evidentes nos seus dizeres e trivialidades do dia-a-dia. Até mesmo nos seus pequenos gostos, como o colar de sementes tropicais que carregava ao pescoço e a bolsa de bordados ciganos que raramente dispensava.
Após ela acompanhar fixamente uma família que se dirigia ao mar e aproveitava o pôr-do-sol, seus olhares se entrecruzam. Ela, sorrindo levemente, o percebe: - O que foi? - Nada - num misto de embaraço e despertar, ele se remexe no banco da frente. – É que já estamos chegando ao hotel e queria saber se você quer escolher onde iremos jantar – tentando despistá-la.
Ela busca a tal família novamente com o olhar. O pai carregava uma menina nos ombros. A mãe, com um véu nos cabelos, limpava o rosto do menino que comia alguma coisa. Sem direcionar-se para Eugene, diz: - Vamos comer no hotel. Chega de rua por hoje.
*** **** ***
No quarto do hotel, enquanto tomavam chá, os amigos ouvem na TV - em língua francesa - que uma fatalidade assolou um vilarejo no leste do país: três crianças morreram misteriosamente no intervalo de uma semana. As autoridades não sabem ainda o real motivo das mortes, nada foi encontrado na água, no solo e tampouco no organismo das crianças. A população local está apavorada, temendo que uma nova e desconhecida peste possa ser a causa de mortes tão inesperadas.
As imagens na tela mostram um lugar exótico, bem diferente do ambiente de Argel e das grandes cidades argelinas. Os dois têm o mesmo pensamento, e de maneira instantânea olham um para o outro, como se dissessem: “Que grande idéia!”.
- Omar, o que você acha de nos levar até esse vilarejo da reportagem? – pergunta Eugene. - Meus amigos, não podemos sair do programa estipulado. Devemos ficar por aqui e depois seguir para Oran – responde o guia tentando dar fim à conversa. - Mas Omar, é uma oportunidade e tanto! Podemos registrar uma história riquíssima, num lugar estupendo! – diz Anne. - Não, por favor, não insistam. Não tenho autorização para levá-los a outros lugares e tampouco poderia garantir a segurança de vocês por lá. Imaginem se for mesmo uma espécie de epidemia que anda assolando aquelas pessoas? Têm certeza que desejam registrar isso de tão perto? - Mas é claro! - entusiasma-se Anne-Marie. - Agora imagine você uma exposição de fotografias que possa contar uma situação dessas! Imagine essa miséria aos olhos de toda a França, quiçá do mundo!
Passando a mão pela cabeça, caminhando de um lado para o outro dentro daquele modesto quarto, Omar sente o desejo dos dois dominando todo o espaço. Não pode ignorá-los, no entanto não deve fugir de suas responsabilidades.
Após mais algumas insistências por parte deles, Omar cede.
- Vocês terão cinco dias a partir de amanhã, entenderam? – levanta-se, gesticulando. - Cinco dias! Pegarão um vôo para Biskra e depois alugarão uma caminhonete. Não poderei acompanhá-los, tenho que resolver outros assuntos aqui na capital, rever parentes, mas providenciarei alguém para guiá-los. E não se esqueçam: tenham muito cuidado! Nessas terras há conflitos que quase ninguém entende, e aquelas pessoas estão alarmadas com tamanha desgraça!
Anne levanta-se e abraça-o. O homem de cabelos grisalhos e sorriso bondoso surpreende-se com tamanha empolgação daquela moça. Eugene, contente, fica a observá-los sentado em sua cama. Em seguida, Omar arrasta duas cadeiras para perto do rapaz e formula um pequeno planejamento acerca do desvio que farão na viagem.
*** **** ***
Horas depois, deitada em sua cama do outro lado do quarto, esforçando-se para encontrar o sono, Anne-Marie chama pelo companheiro de fotografias, sem virar o corpo em sua direção: - Eugene?
Com a cabeça enfiada no travesseiro, quase resmungando, mas completamente sem sono ele se manifesta: - Sim? - Você não tem medo que algo lhe aconteça nessa empreitada?
Limpando a garganta com uma tosse, Eugene admite o que pensava justamente naquele momento. - Tenho sim. Penso muito no Fabrice, mas também quero muito ir àquele lugar.
Após um silêncio apreensivo de ambos, o rapaz pergunta-lhe, ainda surpreso com o questionamento da amiga: - E você, está com medo? - Não. Não é medo. É estranho, porque sinto um aperto no peito mesmo acreditando que nada vai nos acontecer. - O que acha que é então? – ele diz saindo de baixo do lençol e encostando-se na cabeceira da cama. - Não sei bem, mas estou com a impressão que vou deixar alguma coisa naquele lugar, para sempre.
Eugene assustou-se com súbita revelação de Anne-Marie. Preferiu não perturbá-la com aquilo. Calou-se. Caso ela quisesse conversar mais, estaria ao seu dispor, sem dúvida. Enfiou-se embaixo do lençol e desejou no mais profundo de sua alma que nada de ruim acontecesse aos dois.
A jovem permanecia de olhos aberto, todavia manteve-se em silêncio. Ficou mais três quartos de hora acordada na tentativa de encontrar qualquer explicação racional para o que sentia. Esforço vão, como sempre é no âmbito das sensações intensas. Quando se mostrou mais fria a madrugada, dormiu.
Os dois caminhavam em pleno sossego pelas calçadas da Av. Marceau, entre o Arco do Triunfo e o Museu de Arte Moderna da cidade. Um jovem rapaz de enorme mochila nas costas aborda aquela pessoa de vestido amarelo que levava consigo um sorriso luminoso e pergunta:
- Senhorita, poderia me emprestar seu isqueiro? - Claro que sim – ela responde, retirando por um instante o tabaco da boca, depois de um leve susto pela espontaneidade do rapaz.
Ele puxa então de um dos muitos bolsos daquela coisa horrenda que carregava nas costas, quase um casco, um cigarro de cannabis. Acende, traga, solta um ruído que demonstra uma extrema satisfação e devolve-lhe o isqueiro. Agradece, após tê-la oferecido o objeto de prazer tão imediato, e vai embora calmamente pela calçada, em sentido oposto aos dois.
Que o Ocidente como um todo vive uma grande onde libertária é de conhecimento geral, mas aquilo causara profunda estranheza naquele casal de amigos.
- Os tempos são outros na França – diz Eugene. - Você viu só? Que audácia desse rapaz! Espero que ele não pague o preço dessa ousadia com os guardas parados naquela esquina lá da frente – comenta Anne. - Bem, provavelmente vai ser observado. Antes ele tivesse olhos azuis e pele clara. Le Pen e os seus adorariam ter presenciado essa cena para mostrar como estão mal acompanhados os jovens franceses.
O jovem que acendera seu cigarro de erva proibida era de ascendência árabe, ou berbere, um magrebino. Os direitistas franceses acusam-nos de perverter a juventude “francesa” e quebrar os valores da nação. Além de roubar os empregos dos “franceses” legítimos. Ora, o rapaz falava francês perfeitamente, com sotaque parisiense, barba muito bem aparada, trajava um jeans com um corte bem moderno e uma camisa de malha escrita fraternité, era um francês autêntico! Provavelmente não aos olhos de Le Pen e os seus, já que seu pai ou avô nascera no norte da África.
Os dois chegavam à Av. de New York, às margens do Sena, atrás do Museu. Passavam das dezesseis horas, estavam atrasados para o encontro marcado naquele modesto café freqüentado basicamente por funcionários do Museu.
- Boa tarde, meus queridos. Sentem-se e peçam um capuccino, está delicioso.
Dessa forma foram recebidos por Omar Azzouzi, argelino de nascimento, com nacionalidade francesa e morador do Quartier Latin há vinte e cinco anos.
Após pequenas simpatias de ambas as partes, começaram a falar sobre o real motivo do encontro:
- Bem, vocês ficarão cinco dias em Argel e o restante da estadia em Oran. Eu os acompanharei sempre que for necessário, onde precisarem ir. Cuidarei para que alguém de minha confiança possa orientá-los caso algum empecilho não me permita fazê-lo.
Eugene Lerond e Anne-Marie Bastien são companheiros de turma num curso de fotografia profissional. Como tradição, sempre ao final de cada semestre, os dois melhores alunos entre todas as unidades são agraciados com uma viagem ao exterior para que utilizem seus aprendizados e, com o material coletado, possam fazer sua primeira exposição fotográfica como profissionais. Pela primeira vez na história de cinco décadas da instituição os alunos escolhidos são da mesma turma! O destino dos dois é a Argélia, do outro lado do Mediterrâneo, ali bem próxima. Uma viagem fenomenal, mas correm boatos entre os alunos do curso que, por problemas financeiros dos sócios, as viagens deixarão de ser para lugares longínquos, contenção de gastos propriamente dita. Noutras épocas, certos alunos visitaram a Tailândia, o Nepal, a Amazônia brasileira, Zanzibar, dessa vez será a Argélia, de história e população tão ligadas à França.
Após a pequena reunião, com extrema euforia, o casal de amigos se despede do futuro companheiro de viagem, tradutor e guia. Ela tem um encontro com o namorado, ele levará o filho ao cinema.
- E como vai o Fabrice? – Anne, querendo saber da criança que faz os olhos de Eugene brilharem. - Lindo! A cada dia mais esperto. Hoje veremos um desses desenhos americanos no cinema. - Quando é mesmo o aniversário dele, Eugene? - Na próxima semana. Será o primeiro aniversário de Fabrice que eu estarei longe, espero que isso não se repita muitas vezes ao longo da vida. Cinco anos, como passou rápido. - E a mãe dele? O que acha disso? - Ela entende o meu lado, sabe que essa viagem é importante para mim, e não deixo nada a desejar enquanto pai. Catherine é uma grande amiga ainda, como sempre foi!
A noite vai caindo, os cachecóis coloridos já inundam a sutil paisagem de Paris. Flores nas portas das livrarias, luzes amarelas nas bancas de jornal, enfeites nas vitrines, crianças passeando com seus cães na Place du Trocadéro, bem atrás da Torre. É primavera na Capital das Luzes, mas o clima em constante mudança não anda poupando os locais: frio e seco.
- Vou comprar uma garrafa de água, você quer? – pergunta Eugene. - Não, obrigada. Tenho mesmo que ir, até pegarei um táxi para não me atrasar pela segunda vez no mesmo dia! – sorrindo, responde Anne-Marie. – Até breve!
Trocam beijos na face e seguem cada um para um lado. Ao entrar no minúsculo e aconchegante mercado, destes que insistem em sobreviver mesmo contra a concorrência desleal das grandes redes, Eugene, já bastante jubiloso pela resolução dos pormenores da viagem, sente um novo suspirar por dentro. O som ambiente do mercado toca “La Boheme”, de Charles Aznavour, a canção preferida de seu falecido pai. Compra a água e fica mais alguns instantes ali dentro esperando a música acabar. Ah, vive la France!
*** **** ***** **** ***
Conto breve e ainda inacabado. Um capítulo novo a cada três dias, prometo!
O canto do almuadem, no alto do minarete, transmite ânimo para os recomeços. Mas recomeçar em quê? Tiraram nossos sonhos, rasgaram nossas vestes, riram de nós. Uno-me àqueles que se viram à Meca na dor e no anseio de pertencer a um outro mundo que não este, este que soluça na sede da glória, que se engasga nos goles afobados da busca por prazeres vãos. Este mundo que está por acabar, sob nossos olhos, e que vai levar na sua ruína todas as falácias dos que ousam dizer que nunca erraram.
Compadeço dos refugiados, pois também não tenho um lugar para chamar de meu. Agarro-me à resistência dos que sofreram rapina, porque também eu fui surrupiado às escondidas. Não há em mim outra dor senão aquela que pulsa descompassada, ininterrupta, no ventre dos que foram profanados, em seus templos, em seus ritos, nas suas profissões de fé. Mancharam minha túnica com vinho tinto, ela que era tão alva, como a do mais místico sufi, e do meu turbante fizeram pano de mesa, onde saciaram suas fomes de desejos corruptos e largaram as migalhas da infâmia.
O que se observa é toda a gente a se acotovelar. Nós que um dia aceitamos todo tipo de pessoa ao nosso lado, sem fazermos distinções de caráter pelas idéias, símbolos e costumes, do contrário sempre honrando quem está próximo apenas pela conduta, não podemos aceitar esse litígio fomentado pela esperteza, pela ganância e pelo egoísmo. Cercaram a mim, de dúvidas, de desgosto, como fizeram a Al-Quds, com barricadas, com canhões. Al-Aqsa e o domo dourado estão mais distantes que nunca de Gaza, ofuscados pelo brilho da artilharia mais covarde e pelas nuvens da mais pavorosa soberba. E meu coração, coberto de arabescos, se confundiu num tempo de passividade, por isso ainda espera um gesto nobre para se reencontrar e seguir adiante.
Mesmo sem a sharia, sem os imanes, aiatolás ou sem o êxtase do próprio Profeta, carrego, ainda assim, o fulgor de um verdadeiro muslim, com ou sem os lamentos pelo martírio de Ali, o grande califa que não retrocedeu. Digo isso porque o Islam nada mais é que rendição, submeter-se a algo que nos é maior, algo que fortalece a vivência, cura as feridas e abre os caminhos para a paz e para os recomeços. Repito, porém: recomeçar em quê?
No companheirismo de Khadija, na alegria, perseverança e bravura de Fátima, inspiro-me para encontrar a parte que falta para minha descendência, certamente fecunda e cheia de esplendor. Certamente mais afortunada que eu! Abro-me a alguém cujas raízes possam sustentar uma vida robusta, como um cedro libanês ou uma oliveira da Cisjordânia. Um recanto de vida que ofereça sombra aos amigos, que viajantes vislumbrem ao longe e tenham a certeza de que o chão é fértil, que a terra é boa.
Certo é que me junto ao povo palestino, e não só, aos berberes, chechenos, afeganes, iraquianos, persas e demais homens que não cansam de lutar por respeito e dignidade, numa convicção íntima de que seu merecimento urge pela evidente condição de que se tem grandeza, e de que semelhantes a nós não se vêem por perto. Felicidade é podermos compartilhar o que temos de melhor, sem interferências ou discórdias. Hasteemos ao vento mais forte o lábaro que ostenta a lua mais promissora, a que parece querer devorar toda covardia e indiferença! Nos tempos de descanso, peregrinemos, despojando nossos pertences, celebrando nossas memórias e felicitando todo e qualquer estrangeiro que venha ao nosso encontro. Salam’ alaikum!
Em calçadas comuns, com gente que apenas transita, despontava num charme de menina bonita. Despistava os mais tolos, cingida por fita, com a mais bárbara e culta das línguas latinas. Gestos florais! Cordões e anéis, seus muitos papéis, cem cachos ou mais! Sandálias rasteiras que agradavam ao rapaz. Estranho rapaz, calou-se e assuntos não queria mais.
Da vida que segue, da chuva que cai, do dito e sorriso, o perfume que vai. Do início, do júbilo, do árduo e do úmido. De tudo que não poderia ser junto. Do fato, defunto. Já foi, é o fim, há muito. Sem trato ou retrato, sem fundo. De tudo isto, é fato, foi único.
Nas paredes, coitadas, se viam murais. De artista caprichosa, poética-en.canta.dor.a.mente-voraz! Sua água, comida, seu molho tão branco, sua estrada vencida. Seus volumes tantos, lembranças guardadas, um mundo envolto em sereno matiz. A janela fechada, guardada do vento, dos muitos ladrões. Seu belos vinis! Seus olhos acanhados, semi-fragilizados, que por um disparate qualquer pareciam cansados. Olhos que, de modo espontâneo, chispavam lampejos da mais nítida percepção da existência. Olhos que, num rosto inteiro de feitiços tamanhos, ficavam numa desconcertante evidência.
No corpo... aconchego, um leito. Os toques... sutis, caprichosamente perfeitos! O contato da carne, entre abraços e apertos, gerava vertigem, um fluxo no peito. Era ânsia, desejo, sem mais e sem menos, por puros gracejos. Mulher atrativa, com ávido jeito, instigava o prazer e assim era feito. As costas, desnudas, convidavam o paladar, despertariam loucuras por muito menos. O seio, altivo, fomentador de saliva, era decididamente de Vênus! Poder-se-ia mais, com força, suavidade ou efeitos, mas tudo que já foi passou. Está feito.
Dos livros que não foram trocados, dos filmes que poderiam ser vistos. Do par de cadeiras que se encostou no canto. Das birras, histórias e recantos. Da metrópole multifacetada que serviu de cúmplice. Do seu pranto. Que não foi triste, mas amargurado. Escondido, envergonhado. Revelador de um recado: acabou o encanto. De tudo isto que já é passado, do distante novembro que foi anotado. Em tudo restou o rapaz, arisco rapaz, exigente rapaz, calado. E se fazendo distante porque assim ele quer, promete que tudo está, como sempre estará, reconciliado.
Das dobras, demoras, da névoa, da beira, de Évora. Vambora, pessoa de nome proparoxítono e sem acento! Abuso literário desde o batismo, que ainda persiste, sem comedimento! Deixe a brisa da tarde soprar-lhe ao ouvido e dizer-lhe aonde vai. Mas vá, de um jeito ou de outro vá, e carregue pela mão quem lhe completará!
Numa época de noites longas, ando lendo por aí desabafos de incomodados. Pois o que não é desdém, é incômodo. Mensagens, rasgadas ou não, despertam um sem-fim de interpretações na alma dos desavisados. Ao lermos por aí, de imediato nos envolvemos. E por aí, no partido dos contentes, dever-se-ia celebrar a vida e nada mais.
Certos homens são ridículos, e sendo ridículos não se arranjam nas convenções. Sendo ridículos, são tomados por uma vontade imensa de arruinar marasmos, de não submeter-se à conduta dos contentes. São desencantados, pois sendo tão ridículos, buscam sempre a completude das coisas. Desse jeito, não despertam em outrem nada além de pena, vergonha, por vezes rancor.
Mas os ridículos se reconhecem e, como disse, há alguns deles por aí. Eles se procuram, e o vento também faz o favor de direcioná-los uns aos outros. As pessoas ridículas carregam um signo: uma cicatriz, no rosto, claramente exposta a quem deles se aproxima. Macularam-se justamente por terem lutado o bom combate, o combate dos justos e dos bravos. Nada exigem e ainda assim os perseguem. Nem nos seus próprios refúgios os deixam em paz.
Como soam os sinos de hoje... Um período de repouso é ofensa, uma dor honesta e suportável é fraqueza. Deve ser por isso que o amor, o sentimento mais ridículo que alguém pode buscar, é, ainda hoje, admoestado.
Estiquem o couro, guardem as vísceras no sal. Há de se cultivar a terra. A natureza se recria em morte e renascimento, flores que caem não impedem o brotar de uma nova. Há, embaixo do céu, um tempo para cada coisa. Sapiência é encorajar-se com olhos e ouvidos abertos para o mundo.
Para cada riso, uma exigência. Assim é o fino humor dos ridículos, abobalhados jamais.
Sigo ao lado de muitos. E que sejam bem-vindas todas as coisas! *************************
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